28 de janeiro de 2015

Auschwitz: a viagem. (parte 1)

E porque passaram 70 anos da libertação de Auschwitz. E porque foi das viagens que mais me marcou. E porque não devemos esquecer este passado tenebroso e tão, mas tão recente... aqui fica novamente um post que partilhei no meu antigo cantinho.
...

Aqui há dias no blog da Audrey Deal falou-se de vendas no Ebay de roupas de pessoas vítimas do holocausto. Vários tipos de pertences pessoais. Sei que não me devia chocar, porque há gente capaz de tudo e sabemos bem que tudo se vende e tudo se compra. Neste mundo há malucos para tudo. Mas confesso que não consegui ficar indiferente. Saber disto mexeu comigo. Não é algo com que consiga brincar, ou fazer piadas. 
E numa troca de comentários e mensagens, prometi fazer um post (ou vários que um não chega) sobre a minha visita à Polónia e mais concretamente a dois dos mais conhecidos campos de concentração. 

Sei que o tema deste post foge um pouco da linha editorial, digamos assim, deste blog. Ou talvez não. A verdade é que os campos de concentração, o extermínio inqualificável levado a cabo pelos nazis aconteceu, esta realidade existiu, bem pertinho de nós, e o mais chocante é que foi possível num tempo não tão distante do nosso. "Foi ontem!" E quer queiramos quer não esta sombra faz parte da História e até da "nossa História". Um dia quero que o meu filho saiba o que se passou. Que saiba o que foi o Holocausto e que perceba a gravidade das leviandades e atrocidades que se viveram nestes campos. Não quero de todo que pense que tudo não passou de um filme. Quero que distinga "A guerra das Estrelas" da "Lista de Schindler", por exemplo. 

Posto isto, em 2011, visitei a Polónia. Foram uns dias surpreendentes. Se me perguntassem se a Polónia era um país que estava na minha lista de viagens a concretizar, diria que não. No entanto, esta viagem proporcionou-se (o meu irmão trabalha lá) e eu adorei. E quero muito voltar. Conheci uma das cidade mais bonitas que já tive oportunidade de visitar: "Wroclaw". Estive também em Cracóvia e fiz algumas visitas que me sensibilizaram bastante. Fabrica de Schindler; Bairro judeu; Campo de concentração de Auschwitz I e Auschwitz-Birkenau II, são exemplos de visitas que me marcaram e que jamais esquecerei.

Quando cheguei ao Campo de concentração de Auschwitz I , aquele cujo portão toda a gente reconhece de filmes e documentários, uma atmosfera pesada caiu sobre mim e sobre todos os visitantes. A verdade é que em todo o caminho feito de Cracóvia até lá me pareceu surreal... não havia uma única placa, indicação o que fosse que referisse "Auschwitz" ou outra qualquer coisa semelhante. O mini-bus seguia sim, placas que indicavam "Oświęcim". Vim a saber depois que os alemães aquando da invasão da Polónia mandaram alterar todas as placas e nomes de praças, ruas, vilas, cidades, tudo,... para alemão. Assim "Oświęcim" é o nome da localidade onde se encontram os campos de concentração e "Auschwitz" é a sua tradução para alemão.

O "Arbeit macht Frei" ("O trabalho liberta" ou "Trabalho nos torna livres") portão. (Auschwitz I )
Cercas e vedações... (Auschwitz I )

Percebi também que toda esta história ainda tem um peso brutal no olhar de todos os polacos. Pelo que soube, pelo meu irmão, a geração dos amigos dele na casa dos 20-30 anos é a primeira geração complemente livre (depois da invasão dos alemães vieram os soviéticos) e muitos deles não conseguem falar sobre estes assuntos, têm dificuldade em visitar os campos (muitos deles nunca o fizeram) e todos os dias dão graças pela vida que têm hoje, muito diferente da dos seus pais e avós.

A visita ao campo de concentração de Auschwitz I, começou com um breve comentário da guia que nos ia fazer a visita sobre o ambiente de respeito e silêncio que se deveria manter ao longo de toda a visita ao campo. A realidade é que estávamos num gigante cenário de horrores, cada recanto, cada pedaço de chão, cada pedra, cada parede, cada edifício, cada cerca,... estavam carregados de um peso brutal. Sentia-se o ambiente pesado em todo o lado.
A guia que nos acompanhou (tal como todos os outros) além da intensa formação, tinha ligação de alguma forma direta ao holocausto. Ou seja, cada palavra, cada explicação era sentida quase como se tivesse a visualizar toda a tragédia enquanto nos relatava histórias. Os olhos enchiam-se de lágrimas facilmente. E toda a gente ouvia com muita atenção, entrava na história, engolia em seco, e deixava escapar lágrimas de compaixão por todos aqueles que ali sofreram.   
Devo salientar que nos foi informado que tendo em conta a carga psicológica forte e intensa a que estes guias estão todos os dias sujeitos que o tempo máximo que por lá permanecem é de 3-6 meses. Ou seja, não há ninguém que esteja ali por estar. Não há ninguém que "debite" as "histórias" por debitar. Todos estão porque algo os motiva. Todos estão porque têm histórias a contar. Não há ninguém que faça aquilo por fazer e que esteja lá como se tivesse num museu.
Quanto ao tirar fotos, foi nos dito explicitamente que poderíamos tirar todas as fotos que quisessemos. Que deveríamos divulgá-las para mostrar e não deixar esquecer a tragédia que ali aconteceu. Pediram-nos sim para não tirar fotos "à lá turista" do tipo daquelas que se tira quando nos encontramos em frente à Torre Eiffel, por exemplo. Cheias de poses e "olhem-para-mim-aqui-debaixo-da-torre!" Ou seja, nada de fotos de poses tipo "olhem-eu-no-maior-cemitério-do-mundo". Fotos do campo, dos edifícios. Das condições degradantes. dos objetos sim. Fotos com poses nossas não. Toda a gente cumpriu.

Um fragmento da praça nominal, onde se realizavam as paradas, com o local preparado para um sargento responsável fazer a contagem das mortes diárias... Na parada era "normal" abater judeus aleatórios de forma a perderam a noção de segurança e ficassem desnorteados. Por mais que se esforçassem durante o dia para cumprir tudo, a aleatoriedade do fuzilamento na parada desconcertava-os. 

Cercas e vedações pelo campo... Alguns (muitos) judeus optaram por se desligar da vida nestas cercas. Diziam: "podem tirar-me tudo, menos a opção que tenho para terminar a minha vida quando e como eu quero"...
O campo de concentração de Auschwitz I não foi construído pelos alemães. Era digamos, que um quartel do exército local que foi  ocupado pelos nazis. Estes fizeram dele um dos seus centros administrativos e aproveitaram parte das instalações para servir de campo de concentração. A determinada altura  a capacidade deste e dos outros campos excedeu largamente a sua capacidade e o extermínio dos judeus não se estava a dar à velocidade que os nazis desejavam. Nessa altura foi mandado construir de propósito um campo denominado de "Auschwitz II–Birkenau" que tinha como principal missão o extermínio declarado de judeus sendo chamado de lugar para a "Solução final". Este campo situa-se a meia dúzia de quilómetros Auschwitz I e voltarei a falar dele num próximo post.

Wall of Death no pátio entre Bloco 11 (prisão - Bloco da morte e das tortura e o Bloco 10 (bloco onde onde as mulheres viviam, vítimas de experiências de esterilização ) onde as execuções por fuzilamento ocorreram...
O facto de o campo de concentração de Auschwitz I ser na sua origem um quartel, fez com que as condições em que viviam os judeus fossem ligeiramente melhores do que posteriormente as condições do campo "Auschwitz II–Birkenau". Custa-me imenso dizer que as condições eram bastante melhores, porque na verdade todos sofreram e não se consegue medir sofrimentos não é verdade? Mas a verdade é que quando falar do campo "Auschwitz II–Birkenau" e vos mostrar as fotos vão perceber a diferença. Esta diferença foi salientada ao longo da visita. Imaginem portanto um quartel, transformado em campo de concentração versus um campo construído de propósito para extermínio em massa de judeus.

Câmara de gás...

Crematório...

O edifício do Gabinete do Comando...
 

6 comentários:

  1. Muitos parabéns por este post. Acabaste de ser responsável pelo aumento da minha lista de locais a visitar.

    Aguardo ansiosamente a continuação.

    beijinho

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  2. Um mundo a Três. acredita que não te vais arrepender! Não foi uma viagem que estivesse na minha lista mas foi A viagem e aquela que quero repetir um dia, voltar à Polónia.

    Beijinhos!

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  3. Sempre foi uma das minhas viagens de sonho. Estou muito ligada a este período da história. Voaste de Lisboa? Para que cidade? Falam lá bem o inglês? francês? Quando for, posso te chatear muito? :)

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Dina podes chatear tudo que quiseres! Voei do Porto para Paris e daqui para Wroclaw (cidade Polaca onde está o meu irmão e aconselho MUITO a visita a esta cidade!!!) desta cidade há comboios e camionetas diretas para Cracóvia.

    Fiz esta escala em Paris para aproveitar as lowcosts, especialmente a wizzair. Compensou muito!

    Chateia o que quiseres! Como o meu irmão está lá estou a par de muita coisa.

    Safam-se bem com o inglês! Melhor do que por cá, mesmo os taxistas, no turismo e os próprios habitantes e comerciantes, não tive problema nenhum. :)

    (desculpa eliminei o comentário anterior por engano)

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  6. Nem sei o que dizer... É um local que quero muito visitar. Tal como tu acredito que o passado não deve ser esquecido.

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