7 de junho de 2015

Só para ti. Avô. O meu rico avô.

Lembro-me dos dias em que me ensinavas com uma paciência infinita a melhor forma de pegar no lápis para a letra sair com uma caligrafia impecável. Repetias e repetias sem demonstrar nenhum cansaço. E ficavas feliz quando conseguia fazer textos inteiros com a caligrafia que gostavas. Guardavas cada texto como se de um tesouro se tratasse. Lembro-me, também, dos dias em que pegavas nas tesouras da poda, nas galochas, na mangueira e em mim, e íamos de sorriso nos lábios fazer o que nós gostávamos: regar, brincar, podar e chafurdar no terreno da aldeia que tanto amávamos. Lembro-me, ainda, das inúmeras vezes que repetiste constantemente e me lembravas da postura correcta que deveria tentar manter no meu dia-a-dia: “uma bailarina tem de ter um corpo de princesa. Direito. Costas sempre direitas, a postura o mais correcta possível.” Era eu, nessa a altura, uma princesa de 6 anos. Lembro-me, perfeitamente, do dia em que durante uma viagem em que tinha o prazer de te ter ao meu lado me comunicaste uma, duas e três vezes o orgulho que tinhas na condução exemplar que eu fazia: “desenrascada e atenta”. Dizias que tinha saído a ti; tu que tinhas uma paixão desmesurada pela tua profissão. Deves ter sido o único motorista dos STCP que se enganou no caminho e tentou entrar pelas portagens da A1 no sentido Porto-Lisboa… o que nos rimos à conta disso. Era eu, nessa a altura, uma princesa de 20 anos.

Tu jovem bravo empregado de cavalariça que nunca conheceu os pais, que qual menino Jesus dormiste noites e noites nas aconchegantes (como gostavas de as relembrar) palhas do celeiro... mostraste a tua força quando te apaixonaste pela menina filha dos Senhores e lutas-te, acreditas-te e conseguiste criar a melhor, a mais forte e a mais unida família de todas: a nossa!

És o nosso orgulho, e a paciência com que nos formaste e educaste a todos foi-te retribuída duplamente. Não houve uma única vez, nos momentos em que sentíamos que os teus olhos se perdiam no infinito e perguntavas tão delicadamente a quem estava ao pé de ti “se podias pernoitar na nossa casa porque infelizmente não sabias onde estavas” que não obtivesses uma resposta tão cheia de carinho que rapidamente te fazia voltar a nós. Sentia-me tão frágil nessas alturas, mas mostrei-me sempre, sempre forte…

Apresentei-te o meu namorado, dezenas de vezes, e de cada vez que o fazia enchias-me de orgulho pela festa que me (nos) fazias. Era sempre o mesmo, o meu único namorado até então, namorei quase uma década e para ti era sempre uma novidade e motivo de festa. Devias pensar que eu era mais louca do que realmente sou... Lembro-me também das inúmeras vezes que me felicitaste pela conclusão do meu curso. Tu que me quiseste ir ver desfilar de cartola pelas ruas da cidade, deste-me durante anos os parabéns pela doutora em que me tornei. Eu comecei a achar um piadão e entrava na festa, tentava situar-te e daí a nada terminávamos os dois numas sonoras e cúmplices gargalhadas. Aí percebia que tinhas voltado para mim, de mais uma cansativa viagem que a tua mente te obrigava a fazer...

No entanto, em determinado dia esqueceste-te da coisa mais importante que tinhas, do teu tesouro... esqueceste-te da tua vida: a minha avó. Aí percebemos, pela primeira vez, a tristeza que pairava no teu olhar. Doeu. Tinhas perdido o rumo.

Passado precisamente um mês disso acontecer, resolveste partir. Calmo. Sereno. Como sempre foste.

Dia 6 de Novembro era o teu dia Avô, este ano farias 90 anos!

Juntos apenas, tivemos a felicidade de festejarmos os 80, mas fizemo-lo como quem festejava os 100. Tu mereceste. E deste valor a cada minuto.

Obrigado avô por tudo. Tenho um orgulho desmedido de ti. E hei-de transmiti-lo aos meus filhos.

[Quando penso um bocadinho apercebo-me logo de onde vem a minha força. De ti. Só podia.]




[Recuperei este post de um antigo blogue meu. Porque sim. Porque hoje faz sentido. Hoje o meu coração está pequenino, ontem dia 6 de junho, fez 10 anos que nos deixaste. Como é possível, 10 anos sem ti. Das melhores pessoas que conheci. O meu avô. O meu rico avô.]

Alzheimer, és uma doença lixada! Só para que saibas.

3 comentários:

  1. Dores impossíveis de apagar, ficam as boas memorias :)

    ResponderEliminar
  2. Fizeste-me lembrar da minha avó, embora a história não seja parecida... Só no amor e na saudade que sinto dela.

    ResponderEliminar
  3. Texto tão bonito e tão transparente nas emoções que transmite.

    ResponderEliminar

Design, coding and theme by Ana Garcês.
Três Quartos de Tudo © 2014-2016